Arquivo mensal: novembro 2009

Domingo… Você no Espelho

O fim que se aproxima, a angústia do tempo que se acaba. A iminência do desconhecido e a inevitabilidade do desapego. Quanta coisa acontece no final do último dia!  E nos desesperamos com a visão da morte embutida em nossas despedidas.

Domingo…  últimos momentos de uma jornada de vitalidade e esperança. Em suas últimas horas, quantas histórias…  quanta leveza construída na dança de suas manhãs e tardes ensolaradas, espreitadas pela dor solitária de seus corações desavisados, que lhe penetram a noite, desafiando suas reservas.

Vem assim a ameaça do final quando, irracionalmente, cedemos aos lamentos e aos fantasmas da escuridão dominical. E, assombrados, não vemos, ou não queremos ver, que a festa tem que acabar inevitavelmente. E nos revoltamos.. e nos debatemos como crianças no final da festa, porque nunca sentimos que aproveitamos tudo que podíamos, porque sempre há muito mais a ser sentido, a ser vivido. E alguém nos questionaria: Por que isso agora? Você não teve um fim de semana inteiro pra você? Você nunca está satisfeito? Por que essa irritação? Por que você fica nervoso domingo à noite?”

Certamente estamos cheios de razão. Onde estamos no Domingo à noite? Ou melhor, onde não queremos estar? Não há dúvida que Domingo é um dia como outro qualquer. A única diferença é que somos colocados diante de nós mesmos, de frente para o espelho. E muitas vezes não queremos ver. Mas, o que não queremos ver? O que não estamos dizendo, domingo à noite?

Não o que deixamos de fazer, mas quem deixamos de ser, e que mudanças foram adiadas em nosso fim de semana? Que decisões foram substituídas por nosso comodismo? Quanto estivemos desviando de nos comunicarmos efetivamente com alguém? Quantas oportunidades de tocarmos e sermos tocados profundamente deixamos de ter?

Quantas voltas demos em torno de nós mesmos neste fim de semana? Quanta beleza pudemos entregar sem percebermos, sem arriscarmos? Quanto nos fizemos cegos ao outro à nossa frente, ao nosso lado? Quanto de nós mesmos decidimos continuar sem conhecer? Quanto tivemos nas mãos e quanto deixamos escapar pelos dedos?

E buscamos algo ou alguém para respaldar nossas expectativas e nossas velhas crenças… E queremos manter nossos olhos abertos até o último segundo, na esperança de uma grande surpresa, uma grande novidade que nos alimente a alma, e nos poupe do esforço de encararmos nós mesmos em nosso real tamanho, nossas reais expectativas e sonhos não realizados… que pudessem diligenciar nossos passos de forma consistente na direção de resultados reais, muito além de um final de semana de festa.

E nos entregamos, por fim, à abençoada inconsciência de um sono profundo que nos resgata da arena no momento exato em que já não podemos negar que, na figura fantasmagórica de nossas máscaras, perseguimos nós mesmos com nossas culpas e perdões, cegos e sábios por nos acolhermos em nossas próprias almas, fundindo nossa luz em nossa sombra enfim… retomando  nossa alma, tão longe abandonada por nós mesmos.

por  André Luiz Braga Queiroz
Maio de 2008

A História de Tibério

Tibério era um garoto magrinho e muito esperto, de 8 anos, que gostava muito de subir em árvores! Era chamado de “macaquinho”  pelos seus irmãos e sua mãe. Sua família era muito querida por ele. Mas seus pais eram muito “mandões”! Ninguém sabia ao certo o porquê de Tibério gostar tanto de subir em árvores e ficar lá em cima, entre os galhos, às vezes horas sem fim…

Sempre que seus pais brigavam muito, ele corria pra uma de suas árvores preferidas e lá ficava… até que seu choro secasse… até que tudo parecesse um sonho chato… sentindo o tempo como se fosse mágico que transformasse a tristeza em pequenas lembranças que quisessem ser esquecidas..

Sempre que subia, encontrava lá em cima, seu canivetinho que ganhou de seu avô. Costumava escrever, recortando nas cascas das árvores, algumas coisas de seu coração. Lá em cima, ele se sentia.. ele mesmo. Ninguém saberia o que sentia.. a menos que fosse ágil como ele, muito curioso e magro suficiente para ir até os galhos mais frágeis..

Muitos anos depois, em outra cidade, já com 40 anos, formado em Administração, casado, já com um filho, Tibério estava enfrentando um grande problema. Entrara em uma sociedade com um amigo da família, numa proposta promissora de bastante lucro! Para isso tivera que investir o dinheiro de um poupança que vinha fazendo desde seus 10 anos de idade! Desde o início, o negócio em que se envolvera nunca lhe dera uma alegria verdadeira. Tibério parecia não valorizar muito as questões muito capitalistas. Parecia viver dentro de si, num mundo fora de si. Sabia que seu esforço era por algo que não pertencia ao seu coração. Aquela situação toda o angustiava a ponto de não ver solução pra sua vida. Teria que se entregar… teria que sucumbir às demandas de outras pessoas, numa atividade que lhe roubava toda a energia. Suas forças estavam por entrar em colapso.

Certo dia, recebeu a carta do advogado que cuidara da herança de seus pais desde que eles partiram, cerca de dois anos antes. A comunicação dizia que ele teria direito àquela antiga casa de seus pais, onde ele morava quando criança.

Uma semana depois ele voltava à sua antiga cidade, de sua infância. Emocionado, andou por toda a casa.. por todo o terreno.. olhando cada detalhe do jardim, seus segredos, seus esconderijos… Quando, de repente se lembrou que adorava aquelas árvores! Não pensou duas vezes! Procurou rapidamente alguma coisa na qual pudesse subir até os galhos mais altos! As árvores estavam maiores e mais robustas! Ele sabia que precisava voltar ao topo de seus sonhos!  Sabia que precisava subir novamente até seu coração nos galhos mais altos!
No fundo do terreno, encontrou uma grande escada.. Quando estava subindo seus degraus, algo parecia acontecer dentro do seu peito.. Seus pulmões pareciam prender suas esperanças dentro de si.. Como se uma música emocionante começasse a soar em seus ouvidos… Como se ouvisse, ao longe, crianças cantando… Sentindo o vento em seu rosto como se corresse em direção de braços carinhosos e acolhedores, misturados em suas imagens e risadas da infância. O cheiro das flores de sua árvore o enfeitiçava de esperanças… de reencontrar-se entre seus galhos..

Enfim… tateando sobre o musgo seco dos troncos… na aspereza protetora de seus galhos.. enfim… enfim…… começava a sentir, nos dedos, o relevo das marcas que fizera, seus rabiscos, desenhos.. suas palavras nas pontas de seus dedos… Quando, num momento que se congelou em seus olhos, pode perceber escrito em uma longa fileira de palavras tortuosas que acompanhavam a incerteza de um galho:

“Não vou ligar para o que eles falam, não ligo que eles pensam que eu não sei pensar direito e conseguir as coisas, vou fazer o que tenho aqui dentro de mim, o que estou sentindo agora em minhas mãos, na minha cabeça. Vou ser Agrônomo, de mexer com muitas plantas e sementes, muitos bichos e ser feliz, feliz, feliz sem esse medo que sinto agora só porque ainda sou criança.”

Seus olhos se encheram de lágrimas. Mandara um recado pra si mesmo! Registrado nas árvores que amava, e que agora decidia cuidar. Transformou sua vida, revivendo o que havia escrito 32 anos antes. Recuperou seu sonho, virou mesas, abandonou desafios de seu trabalho, sua rotina, sua prisão. Voltou para o campo, assumiu a casa da sua infância, tornou-se sereno e realizado. E isso não seria o fim…

[qualquer semelhança de nomes e relato terá sido mera coincidência]
Por  André Luiz B. Queiroz
Janeiro 2009