A Respiração

A respiração é um fenômeno rítmico. Ela se compõe de duas fases, a inspiração e a expiração. A respiração serve como um ótimo exemplo para a lei da polaridade: os dois pólos, inspiração e expiração, formam um ritmo por sua troca contínua. É assim que um pólo obriga o surgimento do oposto, pois a inspiração provoca a expiração etc. Também podemos dizer: cada pólo vive da existência do pólo contrário, pois se destruirmos uma fase a outra também desaparece. Um pólo compensa o outro e ambos formam a totalidade. A respiração consiste em ritmo, e ritmo é o alicerce de tudo o que vive. Apenas podemos substituir com facilidade os pólos da respiração pelos conceitos de tensão e relaxamento (contração e descontração). Essa correlação entre inspiração/contração e expiração/descontração se torna muito visível quando suspiramos. Existe um suspiro de inspiração que leva a contração, e existe um suspiro na expiração que leva à descontração.

No que se refere ao corpo, o fenômeno central da respiração é um processo de troca: através da inspiração, o oxigênio contido no ar é levado aos corpúsculos vermelhos do sangue; quando expiramos, expelimos dióxido de carbono. A respiração abrange a polaridade da recepção e da entrega, do dar e do receber. Com isso, chegamos ao simbolismo mais importante da respiração. Nas palavras de Goethe:

Há duas bênçãos na respiração,
absorver o ar e solta-lo outra vez;
uma nos pressiona, outra nos refresca,
que mistura maravilhosa é a vida.

Todas as línguas antigas usam a mesma palavra para respiração e para designar a alma ou o espírito. Em latim, spirare significa “respirar” e spiritus significa espírito;mais uma vez, reecontramos a raiz de ambas as palavras num único termo: “inspiração” que, literalmente, significa “inspirar” e assim está ligada inseparavelmente a respirar para dentro, ou seja, deixar entrar. Em grego, psyche significa tanto “respiração” como “alma”. Em sânscrito encontramos a palavra atman,  na qual podemos logo ver o elo que liga à palavra germânica atmen (respirar). Na língua hindu, descobrimos também que uma pessoa que atingiuma perfeição é chamada de Mahatma, o que significa, literalmente, tanto “grande alma” como “grande respiração”. Da doutrina hindu aprendemos também que a respiração é a portadora da verdadeira força vital à qual os indianos chamam prana. Na história bíblica da Criação aprendemos que Deus soprou seu hálito divino no torrão de barro que formara e que, ao fazê-lo, deu a Adão uma alma viva.

Essa imagem nos mostra de forma muito bela como é insuflado, no corpo material, no aspecto formal, algo que não provém da Criação, o hálito divino. Somente esse “alento” que transcende o mundo criado é que nos transforma em seres vivos, animados. E ei-nos aqui muito próximos do segredo da respiração. A respiração nem faz parte de nós, nem nos pertence. Não é a respiração que está em nós, mas somos nós é que estamos na respiração. Por meio da respiração estamos eternamente ligados a algo que transcende a Criação. Que está além da forma. A respiração faz com que essa ligação com o âmbito metafísico (no sentido literal: com o que está por trás da natureza) não se desfaça. Vivemos na respiração como se estivéssemos dentro de um útero gigantesco, que se estende muito além de nossa pequena e limitada existência, pois ele é a vida, aquele derradeiro grande mistério que não conseguimos explicar, nem definir que só podemos sentir abrindo-nos e permitindo que flua através de nós. A respiração é o cordão umbilical através do qual esta vida flui para nós. É a respiração que faz com que continuemos fiéis a esse dar e receber.

É nisso que reside sua grande importância. A respiração nos impede de nos isolarmos, de nos encerrarmos em nós mesmos, impede que tornemos as fronteiras do nosso eu inteiramente impenetráveis. Embora, como seres humanos, gostemos de nos encapsularmos em nosso ego, a respiração nos obriga a manter nosso vínculo com o não-eu. Convém tornarmo-nos cientes de que o inimigo respira o mesmo ar que nós inspiramos e expiramos. O animal e a planta também. É a respiração que nos liga continuamente a tudo o que existe. Não importa o quanto o ser humano tente se isolar, a respiração o vinculará a tudo e a todos. O ar que respiramos nos une num todo, quer queiramos ou não. A respiração, portanto tem algo a ver com “contato” e com “relacionamento”.

Esse contato entre o que vem do exterior e o nosso corpo acontece nas vesículas pulmonares (alvéolos). Nosso pulmão possui uma superfície interna de cerca de setenta metros quadrados, ao passo que a superfície de nossa pele mede apenas até dois metros e meio quadrados. O pulmão é o nosso grande órgão de contato. Se observarmos melhor, podemos reconhecer também as sutis diferenças existentes entre os dois grandes órgãos humanos de contato, os pulmões e a pele. O contato da pele é muito direto, é mais palpável e intenso do que o dos pulmões, e depende de nossa vontade. Podemos tocar em alguém ou deixar que nos toquem. O contato que estabelecemos através dos nossos pulmões é indireto, apesar de compulsório. Não podemos impedi-lo, mesmo que possamos não suportar alguém. Uma outra pessoa pode nos fazer faltar o ar. Um sintoma de doença pode muitas vezes ser atribuído alternadamente a estes dois órgãos de contato, a pele e os pulmões. Um abscesso cutâneo suprimido pode surgir como ataque de asma e então, depois que esta foi tratada, surgir outra vez como erupção cutânea. Pois, tal como as erupções cutâneas, a asma também é uma expressão do mesmo problema de personalidade – contato, toque, relacionamento. A relutância em estabelecer contato através da respiração pode surgir na forma de espasmos durante a expiração, como acontece com a pessoa asmática.

Se prestarmos mais atenção ao uso das expressões lingüísticas relacionadas com a respiração ou o ar, descobriremos que existem situações em que sentimos falta de ar ou em que não conseguimos mais respirar livremente. É nesse ponto que começamos a tocar no assunto da liberdade e da restrição. Começamos a vida com nossa primeira respiração; terminamos a vida num último suspiro. No entanto, ao respirarmos pela primeira vez damos o primeiro passo par o mundo exterior, livrando-nos de nossa união simbólica com a mãe: tornamo-nos independentes, auto-suficientes, livres. Toda dificuldade respiratória, muitas vezes, é sinal de medo, medo de dar o primeiro passo rumo à liberdade e à independência. Nesses casos, a liberdade produz o efeito de “nos tirar o fôlego” ou, na verdade, a liberdade de estarem ao ar livre: a primeira coisa que fazem é inspirar profundamente pois, afinal, agora podem respira livremente outra vez.

Até mesmo a expressão ”preciso de ar”, sensação que nos acomete quando estamos num ambiente constrangedor, significa fome de liberdade e de espaço livre.

Resumindo, a respiração simboliza principalmente os seguintes tema:

Ritmo, no sentido de “não só/mas também”
Contração – descontração
Receber – dar
Contato – resistência ao contato
Liberdade – restrição

 
Por  Thorwald Dethlefsen & Rüdiger Dahlke
“A Doença como Caminho”,   p.109  Cultrix

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