O Desespero Humano

Impossível não considerar o desespero de nossa alma tão humana.
Impossível descartar a inocência da inconsciência humana. Até mesmo da minha própria em tentar descrevê-la.

Dançamos em frente ao espelho.. Dançamos para os que desejamos e para quem odiamos. Sentimos nossos corações como centros do Universo. Podemos apostar nisso. Temos razão em tudo. Esse é o nosso ponto de vista. E, por ele podemos apostar. Sempre temos razão.

Nosso drama começa a se incendiar quando entramos em discordância entre o que queremos parecer que somos e o que sabemos que somos. Saber quem somos é assustador. Por isso criamos tantos artifícios de desfoque para a sociedade. Quanto mais fumaça no ambiente menos temos que ser quem realmente somos. Então conseguimos nos esconder por trás de nossos papéis sociais, profissionais e familiares, nossas ilusões de caráter, nosso comportamento exemplar, nossa atuação religiosa, nossa pobreza, descaso, nossa loucura. E continuamos a nos disfarçar pelo exercício de nossa força, nossas alucinações de poder, nossa equivocada noção de amor.

É impressionante como desconhecemos nossas próprias verdades. E como pretendemos julgar o que acreditamos ser a verdade do outro. Afinal de contas, precisamos do exercício desses prazerosos poderes. Senão não seremos humanos de verdade. E, como humanos, a imperfeição é inerente. Tentar a perfeição é nossa meta existencial. Porém, alcançá-la seria como reencontrar nossos cálices mais sagrados, e encarar nossa própria maldade e beleza.

Então perambulamos a vida em busca de nós mesmos… nos outros. Os outros se tornam cúmplices de nossas existências. Exatamente quando virtualmente nos aproximamos de nos encontrarmos no outro é que nossa natureza se torna impossível. Encontrarmos nós mesmos buscando nos encontrarmos no outro só é tão perfeito quanto é impossível. Porque o outro é, na verdade, uma concepção de nossa própria busca pessoal. Ele não existe senão em nossa própria angústia. E é na busca de nós mesmos no outro que passamos pertinho de nós mesmos, pertinho do retorno a nós mesmos. Mas, mobilizados pela cultura que defende que o prazer, a realização, a verdade, e que o amor está do fora de nós mesmos é que nos tornamos cegos à nossa própria beleza, e passamos bem pertinho de nós mesmos em direção à imagem do outro refletida em nossa fantasia de realização.

Quando olhamos no espelho, não vemos o vazio de nossa invisibilidade. Enfeitamos nossa carcaça pra que alguém tão desavisado quanto nós, emplaque seu impulso de realização na figura que dança à sua frente. E é o momento de nos sentirmos nós mesmos… embora naufragados nas ondas de nossas próprias inconsciências.. somos capturados pelo outro, que imagina ter encontrado sua própria imagem projetada, sem saber que a imagem que vê é também de um coração desesperado em se encontrar consigo mesmo. Então cantamos juntos nossos segredos comuns que se protegem e se realimentam de seus próprios sonhos, sabendo comuns, sabendo insolúveis e impossíveis, porque buscam a si mesmos na máscara criada sobre a imagem do outro.

por  André Luiz Braga Queiroz
Novembro de 2007

 

 

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