O Coração e a Circulação

Thorwald Dethlefsen  &  Rüdiger Dahlke

Pressão Sanguínea Baixa – Pressão Alta
(Hipotonia – Hipertonia)

O Sangue é o símbolo da vida. O sangue é o portador material da vida e expressão da individualidade. O sangue é um “suco muito especial” – é o suco vital. Cada gota de sangue contém o ser humano como um todo: eis o motivo do grande significado do sangue em todos os rituais de magia. É por isso que os radiestesistas que usam pêndulos se utilizam de uma gota de sangue como “testemunha”, o que permite que se faça, a partir dela, um diagnóstico total.

A pressão sanguínea é a expressão do dinamismo de um ser humano. Ela se constitui a partir das trocas entre o comportamento do sangue fluido e o comportamento das vias sangüíneas enquanto continentes desse fluxo. Ao analisar a pressão sangüínea devemos sempre levar em conta estes componentes antagônicos: por um lado o que flui, o líquido e por outro o limite e a resistência das paredes dos vasos. Se o sangue corresponde ao próprio ser, as paredes dos vasos são os limites pelos quais se orienta o desenvolvimento da personalidade, a fim de enfrentar a resistência, os obstáculos que impedem seu desenvolvimento.

Pessoas cuja pressão sangüínea é excessivamente baixa (hipotonia) não são capazes de enfrentar esses limites. Elas nem tentam enfrentar os obstáculos, evitam todas as resistências – nunca vão até os limites. Assim que uma pessoa como essa se vê diante de um conflito, ela depressa se retrai; pelo mesmo critério, também o sangue o faz, a ponto de ela sofrer um desmaio. Portanto, essa pessoa renuncia ao poder (aparentemente!), retrai o sangue e perde a consciência, deixando de assumir as próprias responsabilidades; ela se entrega. Quando perde a consciência, ela se retira do mundo consciente para o mundo inconsciente e, desta forma, nada mais tem a ver com os problemas que teria de enfrentar. Os problemas deixam simplesmente de existir. Trata-se de uma situação semelhante à que se vê nas operetas: a dama flagrada pelo marido numa situação embaraçosa desmaia imediatamente e todos os envolvidos na situação esforçam-se para fazê-la recobrar a consciência com a ajuda de água, de ar fresco e de sais para cheirar. Pois de que adianta uma briga, se a principal responsável se refugia em outro nível e, dessa forma, renuncia de um golpe à responsabilidade?

Em geral, pessoas hipotônicas são literalmente incapazes de “suportar”: não suportam uma coisa, não suportam ninguém, não suportam nada, faltar-lhes a firmeza e a estrutura corretas. Qualquer exigência as abate e elas desmaiam. Os que estão ao seu redor têm de erguê-las pelos pés para que mais sangue aflua à cabeça – o centro do poder – de forma a fazê-las recuperar as forças, conseguir que se controlem e assumam suas responsabilidades. Inclusive a sexualidade é um dos âmbitos de que as pessoas com pressão sangüínea baixa fogem, visto que a sexualidade depende bastante de tal pulsação do sangue.

Além disso, ainda é freqüente nas pessoas hipotônicas o quadro de anemia pois, na maior parte das vezes, elas sofrem de carência de ferro no sangue. Disso resulta que a transmutação da energia cósmica (prana) que obtemos com a respiração fica perturbada. A anemia revela uma recusa em usar o poder da energia vital disponível, impedindo assim que esta seja transformada em força ativa. Eis aí outro exemplo de como a doença pode ser usada como álibi para a própria passividade. Os hipotônicos carecem do impulso vital necessário.

Todas as medidas terapêuticas significativas para a elevação da pressão sangüínea estão sem exceção associadas, em maior ou menor grau, a vários métodos de introdução de energia no organismo, e só funcionam enquanto essas prescrições forem seguidas à risca: lavagens, escovações, andar na água, exercícios físicos, manutenção da forma através de ginástica, uso da terapia de Kneipp. Tudo isso eleva a pressão sangüínea porque a pessoa faz alguma coisa e transforma a energia em fato orgânico. Sua utilidade cessa no momento em que se abandonam esses exercícios. Resultados duradouros só podem ser esperados de uma modificação na filosofia de vida.

O problema oposto é o caso da pressão sangüínea alta demais (hipertonia). Sabemos, através de pesquisas experimentais, que o pulso e a pressão do sangue se elevam não só no caso de um aumento da atividade física, mas também no de um mero pensamento sobre essa atividade. A pressão sangüínea também sobe quando uma situação de conflito parece ser inevitável durante uma conversa, e desce outra vez de imediato quando a própria pessoa implicada fala sobre o conflito, verbalizando-o. Esse conhecimento, obtido na prática, é uma boa base para entendermos o que há por trás da pressão alta. Quando a pressão sobe, sempre se imagina um esforço, sem que essa atividade motora de fato exista e seja descarregada; o que acontece literalmente é uma “pressão contínua”. Neste caso, as pessoas envolvidas produzem em seu interior uma excitação a longo prazo, induzida pela própria imaginação, e o sistema circulatório mantém essa excitação duradoura na expectativa de que ela seja eventualmente transformada em ação. Mas, se essa ação não é materializada, o paciente vive “sob pressão”. Para nós é de grande importância neste ponto o fato de que a mesma relação se aplica no que se refere ao conflito. Visto que sabemos que a simples menção de um conflito pode causar um aumento de pressão, que pode ser simplesmente revertida ao se falar sobre o mesmo, vemos com clareza que os hipertônicos estão sempre em situações conflitantes, sem, no entanto, arranjarem uma solução para as mesmas. Elas “ficam por perto do conflito” mas não o resolvem. O aumento da pressão sangüínea tem sentido fisiológico exatamente na exigência de liberar temporariamente mais energia, para os hipertônicos poderem enfrentar melhor e com mais vigor as tarefas e os conflitos que têm diante de si. Quando isso acontece, a solução usada esgota o excesso de energia e a pressão cai para o nível normal. Já os hipertônicos que não resolvem seus conflitos não esgotam o excesso de pressão disponível. Preferem refugiar-se numa “atividade” superficial, tentando enganar através dela a si mesmos e aos outros, esquivando-se do confronto com o conflito.

Podemos ver que tanto os hipotônicos como os hipertônicos fogem dos conflitos, embora usem táticas diferentes. O hipotônico foge na medida em que se retrai para a inconsciência; o hipertônico se desvia e afasta o ambiente gerador do conflito através de uma atividade exagerada e de um funcionamento supérfluo. Ele foge através de uma ação excessiva. No que se refere a essa polaridade, encontramos casos de pressão baixa com mais freqüência entre as mulheres, ao passo que a pressão alta é mais freqüente nos homens. Além disso, a pressão alta é um indício de que existe agressividade reprimida. A animosidade fica por sua vez só na imaginação e assim a energia gerada não é descarregada através de uma ação. A esse comportamento o homem dá o nome de autocontrole. O impulso agressivo leva à pressão alta, o autocontrole faz os vasos se contraírem. Assim pode-se manter a pressão sob controle. A pressão do sangue e a resistência à pressão que as paredes dos vasos oferecem levam ao aumento da pressão. Mais adiante veremos como essa postura de agressividade controlada leva ao infarto do coração.

Conhecemos ainda a pressão alta ocasionada pela idade, que está associada ao endurecimento das paredes dos vasos. O sistema venoso tem como tarefas a transmissão e a comunicação. Se a flexibilidade e a elasticidade desaparecem com a idade, a comunicação cessa e aumenta a pressão interior, o que é inevitável.

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O Coração

A batida cardíaca é um acontecimento amplamente autônomo que, sem nenhum tipo de treinamento (por exemplo, de biofeedback), está além do alcance da intervenção voluntária. Esse ritmo sinódico é a expressão de uma regra bem rígida do corpo. O ritmo cardíaco se assemelha ao ritmo respiratório, sendo que este último está muito mais sujeito à intervenção deliberada. O batimento cardíaco é um ritmo harmônico e estreitamente controlado. Se, durante o funcionamento rítmico, o coração de repente bater mais devagar ou se acelerar, estará acontecendo um distúrbio da ordem cardíaca, ou seja um desvio do equilíbrio normal.

Se levarmos em conta os vários usos idiomáticos da palavra coração, veremos que ela sempre esta associada a situações de cunho emocional. Uma emoção é algo que o ser extravasa, é um movimento que parte de seu íntimo (do latim, emovere = mover para fora de si mesmo).  Diz-se: meu coração pula de alegria – meu coração parou de tanto medo – meu coração está prestes a estourar de alegria – meu coração parece querer saltar do peito – meu coração ficou entalado na garganta – sinto um peso no coração – eu a tinha perto do coração – o seu coração levou a situação muito a sério. Se falta a uma pessoa esse lado emocional que independe da razão, ela dá a impressão de ser impiedosa (sem coração). Se dois amantes se casam, dizemos: eles uniram seus corações. Em todas essas expressões, o coração é o símbolo de um centro do ser humano que não é controlado nem pelo intelecto, nem pela vontade.

Não se trata apenas de um centro, mas do centro do corpo; ele está virtualmente no meio, apenas um pouco deslocado para a esquerda, na direção da metade corporal vinculada ao “sentimento” (que corresponde ao hemisfério direito do cérebro). Ele está exatamente no lugar para onde apontamos quando queremos mostrar quem somos. O sentimento e, em especial o amor, estão intimamente associados ao coração, como nos mostram as expressões já citadas. Temos um “coração de criança” quando gostamos delas. Quando guardamos alguém no coração nos abrimos para essa pessoa e a deixamos entrar. Somos pessoas de “bom coração” quando estamos preparados para nos abrir e a entregar generosamente nosso afeto aos outros; as pessoas reservadas, ao contrário, são as que não ouvem a voz do coração, são limitadas e frias. Essas nunca dariam de coração, pois teriam de se entregar. Ao contrário, controlam-se para que seu coração nada perca – é por isso que fazem tudo só com “meio coração” (não se dedicando sinceramente). Por outro lado, a pessoa de coração mole arrisca-se a uma entrega irrestrita e seu afeto não tem limites.

Esses sentimentos mostram a personalidade da pessoa que se afasta da polaridade afetiva (e exige que tudo tenha finalidades e limites).

Encontramos ambas as possibilidades simbolizadas no coração: nosso coração anatômico é dividido em duas partes pela parede divisória interna, de tal forma que o próprio batimento cardíaco é caracterizado por um som duplo. Na hora do nascimento, no exato momento em que respiramos pela primeira vez, entrando assim para o mundo da polaridade, a parede divisória se fecha automaticamente por uma ação reflexa, e uma grande câmara, com uma circulação, de repente se tornam duas; muitas vezes o recém-nascido sente isso com desespero. Por outro lado, o símbolo do coração – como atesta o desenho espontâneo de todas as crianças – tem um traçado típico de duas câmaras arredondadas se unindo num único ponto. Da duplicidade surge a unidade. É assim que o coração também significa para nós um símbolo de amor e união. É isso que queremos dizer quando afirmamos: a mãe leva o filho no coração. Anatomicamente essa expressão não teria sentido: no caso, o coração está apenas servindo de símbolo para nosso centro amoroso e, portanto, não tem importância alguma se ele fica na parte superior ou inferior do corpo enquanto o feto cresce no interior do corpo.

Podemos até mesmo afirmar que os seres humanos têm dois centros: um superior e outro inferior – cabeça e coração, entendimento e sentimento. De uma pessoa “perfeita” esperamos que ela tenha ambas as funções em equilíbrio harmonioso. A pessoa puramente intelectual causa uma impressão unilateral e fria. O ser humano que só vive dos sentimentos nos parece muitas vezes caótico e desorganizado. Só quando ambas as funções se completam e se enriquecem mutuamente é que a pessoa nos parece “inteira”.

As várias expressões em que se menciona o coração deixam claro para nós que, aquilo que perturba o seu batimento fazendo-o descompassar, sempre envolve emoções, seja o choque que acelera o batimento ou ocasiona a parada cardíaca, seja o prazer ou amor que podem acelerar o ritmo do coração a ponto de ele dar a sensação de que vai saltar pela boca: podemos literalmente sentir e ouvir o coração batendo. O mesmo acontece nas perturbações do ritmo do batimento cardíaco físico; nesse caso a emoção correspondente não pode ser vista. E é nisso, na verdade, que está o problema: as perturbações cardíacas costumam atacar aquelas pessoas que não estão preparadas para serem sufocadas por uma “antiga emoção” que as arranca da rotina corriqueira. Nesses casos, a perturbação cardíaca acontece pelo fato de faltar segurança às pessoas que se deixam envolver por suas emoções. Elas se apegam ao raciocínio e a um estilo habitual de vida e não estão dispostas a permitir que essa rotina seja perturbada por sentimentos e emoções. Não desejam que a regularidade de sua vida seja perturbada por extravasamentos emocionais. No entanto, nesses casos, a emoção apenas se somatiza e o coração começa a apresentar problemas por conta própria. O batimento cardíaco se acelera e força tais pessoas a “ouvir seus corações”!

Em circunstâncias normais não temos consciência do nosso batimento cardíaco. No entanto, podemos senti-lo e ouvi-lo em condição de estresse, quando ficamos emocionados ou doentes. A batida cardíaca chama nossa atenção consciente só quando algo é excitante ou se grandes modificações estiverem prestes a ocorrer em nossa vida. Eis aí a chave para descobrirmos e entendermos todos os nossos problemas cardíacos: os sintomas cardíacos nos forçam a “ouvir nossos corações” outra vez. Os pacientes cardíacos são pessoas que ouvem unicamente suas cabeças e para quem o coração não tem quase nenhuma importância. Esse fenômeno é bastante evidente nos pacientes cardiofóbicos. Por “cardiofobia” entendemos um medo fisicamente infundado acerca da atividade do próprio coração, que pode levar a uma atenção mórbida e exagerada ao coração. (Essa doença também se chama cardioneurose.) O medo da batida cardíaca é tão grande no caso dos cardioneuróticos que eles se declaram dispostos a modificar todo o seu estilo de vida.

Ao considerar essa forma de comportamento, podemos notar outra vez o grau de sabedoria e de ironia com que atua a doença. O cardiofóbico é continuamente forçado a observar seu coração e a subordinar toda sua vida às necessidades do mesmo. Nesse processo, ele vive sob um medo constante de que seu coração possa parar algum dia e, assim, ele ficar “sem coração”. A cardiofobia os força a levar sua atenção consciente ao próprio centro do coração. E quem deixaria de rir “de coração” dessa  situação?

O que acontece no nível psicológico dos cardioneuróticos é um processo que no caso da angina pectoris já se instalou profundamente no nível físico. As artérias que levam o sangue ao coração estão endurecidas e estreitadas e, assim, o coração não recebe mais os nutrientes de que necessita. De fato, não há muito o que interpretar nesse ponto, visto que todos sabem o que esperar de pessoas com coração “endurecido” e “empedernido”. A palavra angina significa, literalmente, aperto e conseqüentemente angina pectoris significa aperto no peito (coração). Enquanto o cardioneurótico ainda sente diretamente esse aperto como medo, este se manifesta de forma concreta como angina pectoris. Um simbolismo original é demonstrado aqui pela medicina acadêmica em sua terapia: dá-se ao cardíaco, em casos de emergência, cápsulas de nitroglicerina (por exemplo, “sublingual”), portanto, explosivos. Com tal substância dinamita-se o aperto para arranjar espaço no coração do doente a fim de que ele permaneça vivo. Os cardíacos têm medo de sofrer com o coração – e têm toda razão!

No entanto, há pessoas que ainda assim não entendem o desafio. Quando o medo de ter sensações ou sentimentos se torna grande demais, a ponto de a pessoa só confiar numa regra absoluta, ela se submete à instalação de um marcapasso. Nesse caso, o ritmo vivo é substituído por uma máquina rítmica, uma espécie de metrônomo (o metro está para o ritmo como a morte representa para a vida!). O que até então era feito pelo sentimento, é assumido pela máquina. Perde-se de fato a flexibilidade de adaptação do ritmo cardíaco, mas, em compensação, os sobressaltos de um coração vivo deixam de representar uma ameaça. Quem tem um coração “apertado” é vítima de suas forças egóicas e de sua ânsia de poder.

Todos sabem que a pressão alta representa um precedente bastante ameaçador para o infarto do coração. Já vimos que o hipertônico é uma pessoa agressiva que reprime a própria agressividade através do autocontrole. Essa estagnação de energia agressiva se descarrega por meio do infarto; o coração parece despedaçar-se. O colapso cardíaco é a soma de todos os socos que não foram dados. No caso do infarto do coração a pessoa pode entender muito bem a antiga sabedoria que diz que dar valor excessivo ao eu e prestigiar sem limite os próprios desejos de poder nos separa do fluxo dos vivos. Só um coração rígido pode se quebrar!

No caso de perturbações e doenças cardíacas devemos fazer as seguintes perguntas:

  1. Há equilíbrio entre meu coração e minha cabeça, entre a compreensão e o sentimento? Eles estão em harmonia?
  2. Dou espaço suficiente para meus próprios sentimentos, me atrevo a demonstrá-los?
  3. Vivo e amo de todo coração ou apenas participo, sem grande entusiasmo?
  4. Minha vida transcorre num ritmo animado ou a forço a adotar um ritmo rígido?
  5. Ainda há combustível e explosivos suficientes em minha vida?
  6. Tenho escutado a voz de meu coração?

. por Thorwald Dethlefsen  e  Rüdiger Dahlke

A Doença como Caminho
Livro da Editora Cultrix – 2007

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